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Como enviar baterias de lítio da China sem bloqueio

UN38.3, ficha MSDS, limites de watts-hora, restrições aéreas e por que o power bank que você quer importar pode não poder voar.

As baterias de lítio saem da China se o relatório UN38.3 cobrir exatamente o modelo de célula e de pack que você compra e se a energia em watts-hora couber na faixa que o seu transportador aceita: abaixo de 100 Wh a maioria dos produtos pode voar como carga, entre 100 Wh e 160 Wh é preciso aprovação expressa da companhia aérea, e acima de 160 Wh o transporte aéreo fica fora. A conversão é aritmética: watts-hora = miliamperes-hora × 3,7 ÷ 1.000; um power bank de 20.000 mAh são 74 Wh e um de 30.000 mAh são 111 Wh.

Quase todo bloqueio por lítio acontece antes de o problema ser logístico: o importador recebeu um PDF com logotipo e não conferiu que modelo ele cobria.

UN38.3, MSDS e certificado de produto: três documentos que não são a mesma coisa

Você pode receber os três, dois ou nenhum. E pode receber o MSDS correto junto de um UN38.3 de outra célula: pior do que não ter nada, porque parece resolvido.

O UN38.3 é vinculado a um modelo, não a uma marca

O relatório UN38.3 cobre uma referência concreta de célula e de pack com o seu número de modelo, não o catálogo inteiro do fabricante. É a parte que quase ninguém confere e onde embarques se perdem.

Quando a fábrica troca de fornecedor de célula para economizar, o relatório antigo deixa de valer mesmo que a aparência do produto não mude. É a substituição de célula, causa mais frequente de um embarque barrado na revisão da companhia aérea.

Há três coisas a verificar: que o modelo de célula do relatório coincide com a ficha técnica; que o modelo do pack corresponde ao produto que você vai receber; e que o laboratório que assina é identificável. Se o relatório é de uma célula e o produto é um pack montado por outra fábrica, falta o ensaio do pack: o montador compra células com UN38.3 e não ensaia o conjunto.

Desde 1º de janeiro de 2020 o que circula é o resumo do ensaio UN38.3, não o relatório completo. É suficiente para embarcar; não é suficiente uma carta de conformidade sem laboratório por trás.

Os limites de watts-hora e o que eles mudam

Dois limites estruturam o transporte de lítio, expressos em energia: 20 Wh para uma célula solta e 100 Wh para uma bateria montada definem o que o regulamento chama de baterias “pequenas”. Acima disso, o envio passa à categoria plenamente regulada, com embalagem homologada e declaração de mercadorias perigosas. Como o rótulo quase sempre vem em mAh, a conversão importa:

Capacidade nominal (mAh a 3,7 V)EnergiaSituação prática
10.00037 WhVoa como carga com UN38.3
20.00074 WhVoa como carga com UN38.3
26.80099,2 WhLogo abaixo dos 100 Wh
30.000111 WhFora da faixa de 100 Wh: só avião de carga
43.200159,8 WhLogo abaixo dos 160 Wh
50.000185 WhAcima de 160 Wh: o aéreo está descartado

O que pode voar como carga e o que tem que ir por mar

As baterias de lítio que viajam sozinhas, sem equipamento, são proibidas como carga em aviões de passageiros. A Seção II das instruções de embalagem 965 e 968, que permitia enviar baterias pequenas soltas com trâmites reduzidos, foi eliminada com transição encerrada em 31 de março de 2022. Desde então, todo envio de baterias soltas — incluindo um power bank — vai por avião de carga, com etiqueta de classe 9 e declaração de mercadorias perigosas.

A distinção que abre portas é a do produto acabado:

ConfiguraçãoExemploVia aérea
Bateria sozinha (UN3480, PI 965)Power bank, célula de reposiçãoSó avião de carga; proibida em avião de passageiros
Embalada com o equipamento (UN3481, PI 966)Produto e bateria na mesma caixa, sem montarAdmite porão de passageiros com limites
Contida no equipamento (UN3481, PI 967)TWS, relógio, caixa de som com a célula dentroA configuração mais permissiva

Desde 2016 as baterias que viajam sozinhas são oferecidas com no máximo 30% da capacidade nominal, e desde 1º de janeiro de 2026 o limite se estendeu às baterias embaladas com o equipamento quando a célula passa de 2,7 Wh. Um TWS, com células abaixo disso, fica de fora; uma caixa de som de 20 Wh embalada com o cabo cumpre o requisito.

No marítimo, sob o código IMDG, a carga segue como classe 9 e exige o UN38.3 e a ficha de segurança, mas não há limite de estado de carga nem proibição de avião de passageiros. Quando o produto passa da faixa aérea confortável, o frete marítimo vira a única via, quase sempre em carga consolidada.

A capacidade é uma decisão logística, não um número de marketing

Escolher 30.000 mAh em vez de 26.000 mAh pode acrescentar um mês a cada reposição. É a diferença entre um produto que viaja no porão em vinte e poucos dias e um que só embarca por avião de carga ou navio.

Se o seu modelo depende de reposição rápida — giro alto no marketplace ou temporada marcada —, a capacidade da bateria é uma decisão de produto como o preço: o produto cruza o limite e não sobe um percentual, muda o modo de transporte inteiro e o capital imobilizado em trânsito.

Quais produtos do catálogo de eletrônicos são afetados

ProdutoCapacidade típica da célulaEfeito
Fones TWSDa ordem de 1 a 3 Wh por unidade com o estojoAéreo sem atrito; o que se revisa é o UN38.3 do pack
Relógio ou pulseira1 a 2 WhAéreo sem atrito
Caixa de som Bluetooth portátil7 a 37 WhAéreo habitual; os modelos grandes se aproximam do limite
Power bank 10.000–20.000 mAh37 a 74 WhAéreo como carga, com UN38.3 e controle de estado de carga
Power bank de 30.000 mAh ou mais111 Wh e acimaSó avião de carga ou marítimo

O power bank, o mais vendido por unidade dentro do catálogo de eletrônicos, decide a rota de toda a operação.

México e Brasil: o mesmo no ar, diferente no destino

As regras de transporte de lítio são as mesmas para o México e para o Brasil, porque são fixadas pela normativa internacional e adotadas por companhias aéreas e armadoras. O que muda é o que se faz antes e depois do embarque.

No México, o produto com bateria pode exigir certificado NOM, cuja aplicabilidade depende da fração tarifária e da categoria concreta. O certificado é obtido sobre o produto acabado, depois de fabricar e antes de embarcar, e a classificação das baterias de lítio está no capítulo 85 da TIGIE.

No Brasil o organismo que aparece primeiro não é o Inmetro, e sim a ANATEL. O Ato ANATEL nº 5155, de 17 de abril de 2024, fixou os requisitos de segurança para carregadores de telefone celular e substituiu a referência anterior à IEC 60950-1 pela IEC 62368-1. Os power banks com saída USB são tratados, na prática, como produto sujeito a homologação ANATEL por conterem bateria de lítio, e o certificado precisa estar no nome de uma empresa brasileira.

As fontes comerciais do setor não concordam se é necessária também a certificação Inmetro. Vale confirmar com o organismo de certificação designado antes de produzir.

Esses limites mudam: confirme a cada embarque

Os limites de lítio são fixados pela IATA no seu regulamento de mercadorias perigosas, que é revisado todo ano, e cada transportador acrescenta as suas próprias restrições acima do mínimo. Um número lido em um artigo — incluindo este — não é uma autorização de embarque.

O regulamento se amplia com frequência: a edição 67, em vigor desde 1º de janeiro de 2026, estendeu o limite de 30% de carga a novas configurações, e em 2026 a OACI e a IATA somaram, por adendo, limitações ao transporte de power banks por passageiros, com tetos de unidades e proibição de despacho na bagagem. As datas exatas variam entre companhias aéreas.

O único número que vale é o que o seu transportador confirma por escrito para aquele embarque.

Graus de célula: A, B e recuperadas

Em Shenzhen convivem três origens de célula: grau A, grau B e células recuperadas de packs desmontados.

O problema não é que existam as de grau B: é que são vendidas como grau A. O que as distingue é a rastreabilidade — marca, modelo e lote — e o ensaio de capacidade real sobre amostra do lote.

Por que um power bank de 20.000 mAh entrega 11.000

A capacidade impressa na caixa é a da célula medida na tensão nominal, 3,7 V. A que sai pela porta USB é a 5 V, e o circuito eleva a tensão, o que consome energia como calor. A conta é 20.000 mAh × 3,7 V = 74 Wh. Entregues a 5 V com 85% de eficiência, dão 12.580 mAh; com um circuito barato, de cerca de 75%, caem a uns 11.100 mAh.

O “20.000” e o “11.000” podem descrever o mesmo produto sem que nenhum seja mentira. O problema é não saber disso quando você fixa o preço e promete número de cargas ao comprador final. E é infração no Brasil declarar capacidade inflada: a normativa da ANATEL proíbe marcar capacidade que não corresponde à real.

O que pedir à fábrica antes de pagar o sinal

A MeliPrep publica o custo do trabalho por trás desta lista: a verificação documental de fornecedor são 349 USD por fornecedor e a inspeção AQL pré-embarque, 299 USD por dia de inspetor — ambos com preço publicado na página de preços. A coordenação de UN38.3, MSDS e certificações de destino é cotada conforme norma e categoria, com as taxas do laboratório a preço de custo.

Um fornecedor que entrega esses seis pontos sem discutir está pronto para exportar. Um que responde “a bateria é de boa qualidade, não se preocupe” está te avisando de que o problema vai aparecer no porto.

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